Discurso do Papa no 37° Encontro Nacional da Renovação Carismática Católica - Itália, 01 de Junho de 2014
Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço-vos muito o vosso acolhimento. Certamente alguém deve ter
dito aos organizadores que gosto muito deste canto «Vive Jesus, o
Senhor»... Quando eu celebrava a Santa Missa com a Renovação Carismática
na catedral em Buenos Aires, depois da consagração e após alguns
segundos de adoração em línguas, entoávamos este canto com muita alegria
e força, como fizestes hoje. Obrigado! Senti-me em casa!
Agradeço à Renovação no Espírito, aos ICCRS e à Catholic Fraternity
este
encontro convosco, que me alegra muito. Agradeço também a presença dos
primeiros que tiveram uma experiência forte do poder do Espírito Santo;
creio que Patty está presente aqui... Vós, Renovação Carismática,
recebestes um grande dom do Senhor. Nascestes de um desejo do Espírito
Santo como «uma corrente de graça na Igreja e para a Igreja». Esta é a
vossa definição: uma corrente de graça.
Qual é o primeiro dom do Espírito Santo? O dom de si mesmo, que é
amor e faz com que nos apaixonemos por Jesus. E este amor muda a vida.
Por isso dizemos «nascer de novo para a vida do Espírito». Disse-o Jesus
a Nicodemos. Recebestes o grande dom da diversidade dos carismas, a
diversidade que leva à harmonia do Espírito Santo, ao serviço da Igreja.
Quando penso em vós, carismáticos, vem-me à mente a própria imagem da
Igreja, mas de modo particular, penso numa grande orquestra, na qual
cada instrumento é diverso do outro e também as vozes são diferentes,
mas todos são necessários para a harmonia da música. Já são Paulo nos
diz isto, no capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios. Portanto, como
numa orquestra, ninguém na Renovação pode pensar que é mais importante
ou maior do que o outro, por favor! Porque quando algum de vós acredita
que é mais importante do que o outro ou maior do que o outro, começa a
peste! Ninguém pode dizer: «Sou o chefe». Vós, como toda a Igreja,
tendes uma só cabeça, um só Senhor: o Senhor Jesus. Repeti comigo: quem é
o chefe da Renovação? O Senhor Jesus! Quem é o chefe da Renovação? o
Senhor Jesus! E podemos dizer isto com o poder que nos dá o Espírito
Santo, porque ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» sem o Espírito
Santo.
Como talvez saibais — porque as notícias correm — nos primeiros anos
da Renovação Carismática em Buenos Aires, eu não gostava muito dos
Carismáticos. E deles dizia: «Parecem uma escola de samba!». Não
compartilhava o seu modo de rezar e muitas coisas novas que aconteciam
na Igreja. Depois, comecei a encontrar-me com eles e no final compreendi
bem o que a Renovação Carismática faz à Igreja. E esta história, que
começou na «escola de samba», acabou de um modo particular: poucos meses
antes de participar no Conclave, a Conferência episcopal nomeou-me
assistente espiritual da Renovação Carismática na Argentina.
A Renovação Carismática é uma grande força para o anúncio do
Evangelho, na alegria do Espírito Santo. Vós recebestes o Espírito Santo
que vos fez descobrir o amor de Deus por todos os seus filhos e o amor
pela Palavra. Nos primeiros tempos ouvia-se que os carismáticos levavam
sempre uma Bíblia consigo, o Novo Testamento... Ainda hoje fazeis isto?
Sim! Não tenho muita certeza! Se não for assim, voltai a este primeiro
amor, trazei no bolso, na bolsa, a Palavra de Deus! E lede um pequeno
trecho. Estai sempre com a Palavra de Deus.
Vós, povo de Deus, povo da Renovação Carismática, estai atentos a não
perder a liberdade que o Espírito Santo nos doou! O perigo para a
Renovação, como diz com frequência o nosso querido padre Raniero
Cantalamessa, é a organização excessiva: o perigo da organização
excessiva.
Tendes necessidade de organização mas não percais a graça de deixar
que Deus seja Deus! «Mas não há maior liberdade do que a de se deixar
conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e
permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e leve para onde Ele
quiser. O Espírito Santo bem sabe o que faz falta em cada época e em
cada momento. A isto chama-se ser misteriosamente fecundo!» (Exort. ap.
Evangelii gaudium, 280).
Outro perigo é tornar-se «
controladores» da graça de Deus.
Muitas vezes, os responsáveis (gosto mais do nome «servidores») de algum
grupo ou comunidade tornam-se, talvez sem querer, administradores da
graça, decidindo quem pode receber a oração de efusão e o baptismo no
Espírito e quem, ao contrário, não pode. Se fazeis isto, peço-vos que
não o façais, não o façais! Vós sois dispensadores da graça de Deus, não
controladores! Não vos comporteis como alfândega do Espírito Santo!
Vós tendes um guia nos Documentos de Malinas, um percurso seguro para não errar o caminho. O primeiro documento é:
Orientação teológica e pastoral. O segundo:
Renovação carismática e ecumenismo, escrito pelo Cardeal Suenens, grande protagonista doConcílio Vaticano II. O terceiro é:
Renovação carismática e serviço ao homem, escrito pelo Cardeal Suenens e pelo Bispo Hélder Câmara.
O vosso percurso é:
evangelização, ecumenismo espiritual, cuidado dos pobres e dos necessitados e acolhimento dos marginalizados. E tudo isto com base na
adoração! O fundamento da renovação é
adorar a Deus!
Pediram-me que dissesse à Renovação o que o Papa espera de vós.